ao meu imaginário avô

e o mundo seu José?
me fale se não é
um tiro no escuro
um dia você canta e no outro
fica mudo.

e a família seu José?
me diga se ainda é
teu forte escudo
um dia você tem
e quando já não tem
fica murcho.

e o amor seu José?
me conte se já é
teu filho Raimundo
um dia você o conhece
e depois se esquece
a morte leva tudo.

queria chorar, mas preferi escrever

3h:20min. Insônia. Estamos em guerra, eu e o mundo. o ano é 2020 e mais de 10 mil pessoas morreram no país por causa de um vírus, e já não consigo escrever poesia. um sentimento de vazio me acomete quase todos os dias, uma incapacidade de sentir arte como um dia já senti. deprimida que nem o ano de dois mil e vinte.

.. reaprendendo a escrever, a ler as coisas. a vida adulta me assusta tanto quanto o COVID 19, e me pego sendo colocada diante de uma parede, e ela me olha de volta, sou eu. O isolamento me permitiu as maiores crises de ansiedade e pensar sobre a realidade me dói. é como uma dor de cabeça que nunca tem fim. não sara.

ontem foi dia das mães, e não sei como me sinto a respeito da minha família, ora sinto saudades, em outras me soa orfandade. gostaria um dia sentir ao certo e no ponto, mas as minhas emoções são extraviadas. será que caberia uma ligação? acho que já não ligamos mais.

pesa em consciência que deveria ser mais grata. tenho casa, um namorado quase perfeito e com ele veio uma gata adulta, pra combinar com nossa atual vivência. ainda continuo não sendo especialista em nada aos vinte e três e nem sabendo se tenho vontade de fazer algo muito adulto, tipo pagar contas demais.

quatro rascunhos, um texto. hoje saiu mais do que lágrimas e isso é um grande passo.

 

solitude

5h:10min. Eu sou a mulher que acorda com a chuva. que renasce a cada estralo de água na varanda. e que ainda não associou um som bonito o bastante que descrevesse o estralo, que dissesse a intensidade da tempestade que caí na cidade. me sinto chover. como cada gotícula, escuridão mansa do nascer do dia, azul em tons fechados. há uma lâmpada laranja sobre minha porta, que se esqueceu de apagar. o alaranjado é a tentativa falha de acordar. é dia aqui dentro. nada lá fora.

(B.M)

clama

deixei a louça por lavar.
nem raspei a tigela,
tudo ficou pela metade.

hoje me sinto um soneto de soror saudade.
ontem fui um livro de mágoas.
assim como Florbela,
sou péssima na arte do disfarce. 

eu quero gritar, gritar freneticamente!
gritar só por gritar: Hoje… amanhã…
mais esta e aquela, a outra e toda a dor da gente
gritar! gritar! e não chamar por ninguém!

Quem disser
que se pode calar a vida inteira
é porque mente!

(Inspirado no poema Amar! de Florbela Espanca)

(B.M)

PRAEIUDICATUM

eu sou aquela goteira que incomoda
a mancha de infiltração espalhada no teto
o mofo cinzento aglomerado
o defeito da casa sem esmero.

a chuva passa e eu continuum
os poros continuam a encharcar
a encanação não dará conta
um dia o teto ruirá

Crrrr crash! 

mesmo que em forma d’água
teu peito venha a transbordar
do chão vieste
ao chão retornará.

(B.M)

balneo

chuveiro aberto.
água que escorre pela têmpora.
lágrimas que escoam pelo ralo.
desensaboam os azulejos.

luz apagada.
para combinar com a parte interna.
meio descuidada.
nem rejunte me remonta.

não há descarga que dê jeito.
nem desentupidor que desobstrua.
ou condicione[a]dor.

(B.M)